Treze de Maio é mais do que uma data religiosa: é uma canção de ninar o coração de católicos (“… a treze de maio, na Cova da Iria, no céu aparece a Virgem Maria. Avé, avé …”), que neste dia comemoram a primeira aparição de N. Sra. de Fátima a três “pastorinhos” portugueses, Lúcia, Francisco e Jacinta. Ela é uma das invocações marianas atribuídas à Mãe de Jesus (*). E essas três crianças afirmaram terem visto e ouvido “uma senhora mais brilhante do que o Sol, em cima de uma azinheira” (árvore alta, forte como o carvalho), que pediu a eles com insistência que rezassem(mos) pela humanidade. Se possível, todo o rosário. Ela previu sangue e conflitos.

E para quem acredita – milhões de devotos, com a chancela do Vaticano — não custa lembrar que cinco meses depois explodiu a Revolução Comunista, na Rússia, e ao longo dos anos seguintes de expansão do chamado Terror Vermelho, calcula-se que mais de sete milhões de camponeses e trabalhadores foram mortos. Aliás, essas previsões (sangue e conflitos) vieram contidas nos três segredos que Ela confidenciou aos três meninos, e só foram reveladas – e assim mesmo ao Papa Pio XII – em 1940, pela mais velha, Lúcia (depois freira, carmelita descalça).

O terceiro desses segredos revelava que haveria um sério atentado contra um líder da Igreja Católica. E de fato, em 13 de maio de 1981, o então Papa João Paulo II sofreu uma tentativa de assassinato à mão armada, levando três tiros, no abdômen, no braço e na mão esquerda, disparados pelo turco Mehmet Ali Agca, supostamente integrante do grupo fascista Lobos Cinzentos.

Mas voltando ao título é permitido inferir que N. Sra. de Fátima falou (fala) português, porque as seis vezes em que ela foi vista pelos três camponeses, sempre no dia 13 dos meses de maio a outubro de 1917, ela conversou com eles (“Não tenhais medo, eu não voz faço mal… depois vos direi quem sou”) e, como dito acima, pediu orações e que ali construíssem uma capela em sua homenagem; ora, não se há de crer que três “saloios” com idades entre 7 e 10 anos, daquela época, naquele fundo de Portugal, entendessem qualquer outro idioma que não “a última flor do Lácio, inculta e bela”. (Olavo Bilac, em seu soneto de amor à Língua Portuguesa). E ali foi construída a Capelinha das

Aparições, ao lado do Santuário que foi erguido depois e que reúne milhões de peregrinos a cada ano.

Por fim, como reforço “à tese”, hoje Ela é cultuada por mais de 260 milhões de fiéis que compõem os nove países da Comunidade de Povos de Língua Portuguesa (**), o que a credencia — além de Santa, para os religiosos – ao posto de embaixadora da lusofonia!

Epílogo: mas além de em Portugal, também é imensa a sua legião de devotos no Brasil, aonde a primeira Igreja – batizada pela população de “candangos”, na época, de Igrejinha — e inteiramente dedicada a Ela, foi construída em Brasília, em 1958, na Asa Sul, por D. Sarah Kubitscheck, em agradecimento à promessa feita pela cura de sua filha Márcia, que sofria severas dores de coluna a ponto de não poder andar. O projeto, muito bonito, é de Oscar Niemayer, que embora ateu convicto, se inspirou no modelo “corneta” do chapéu das freiras “Filhas da Caridade”, congregação fundada por São Vicente de Paulo, em meados do século XVII. E, no Rio de Janeiro, temos o Santuário de N.Sra. de Fátima, no Recreio dos Bandeirantes.

(*) N. Sra. de Fátima é, como todas as “nossas senhoras”, a representação de Maria, só que identificada com o local (o idioma!) e a comunidade aonde fez aparições. A peculiaridade é que Fátima foi a sua última aparição para os humanos, até hoje, segundo a Igreja Católica de Roma.

(**) Segundo o Instituto Camões, o português é a quarta língua mais falada no mundo, atrás apenas do mandarim, do inglês e do espanhol.

Por Reinaldo Paes Barreto