Domingo passado tivemos a alegria de receber em casa, para um espumante (brasileiro, produzido no Vale do São Francisco, em Petrolina), as queridas amigas de toda a vida, Gilda Mattoso e Marília Torres. Mas a Gilda mora aqui e quando não está correndo “oropa, frança e bahia” com o Gil ou Caetano, a gente encontra sempre. A Marilia, não. Arrumou um exílio dourado em Paris e mora e trabalha lá (na nossa embaixada) desde 1976.  Donde o prazer do reencontro, depois de uns bons 15 anos sem nos vermos.

E, claro, recordamos o Paris de cada um (eu passei dois anos e meio morando e estudando lá, 1966/1968 e, detalhe: e com 21 a 23 anos!)  e quando fui me deitar continuei recordando …

E das muitas lembranças, registro uma em especial, que descrevo a seguir, porque marcou a minha atitude com relação à arte da gastronomia, o que me valeu toda uma história de vida. Por exemplo: fui um dos 17 fundadores da mais antiga confraria do Rio, Os Companheiros da Boa Mesa, em 1982 (em pleno funcionamento ainda hoje) e, nesses 40 anos, tenho escrito ininterruptamente para revistas, jornais e blogs sobre a sempre renovada experiência do bom goto – e do gosto bom!

Mas, antes, um preâmbulo. Desde que cheguei a Paris, assumi comigo o compromisso de aprender não só o idioma (e Ciências Políticas), mas apreender como pensavam, interagiam, se divertiam e se comportavam, enfim, os franceses “de mon âge”. Bom, depois de algumas batalhas (e muitos sábados à noite sozinho, tomando meu vinho triste no bistrô da esquina) consegui, enfim, sair como uma francesa, minha colega de Sciences-Po (Instituto de Ciências Políticas) e abro parênteses para uma estreia hilária. Fui ao encontro dela às 8h da noite na portaria do seu pequeno “estudiô” em Saint-Germain-des-Prés e saímos, descendo a pé até o Boulevard Saint-Michel, a caminho de um restaurantezinho no subsolo da Rua Xavier Privas (nunca vou me esquecer). O caminho era cheio de ruelas e a cada vez que trocávamos de calçada eu passava para o lado de fora, cavalheirescamente. Na terceira ou quarta vez ela me perguntou: “você tem labirintite?”

Chegamos, enfim e ela passou metade do jantar me contando o que tinha comido no almoço. Estranhei, mas … foi uma noite maravilhosa! Uns três dias depois, no intervalo entre duas aulas (o mestre era o Maurice Duverger) foi ela que “me convidou” para um jantar no pequeno apartamento dela, com mais um casal de primos que estavam de passagem, porque moravam em Vincennes. Mas, na véspera, me ligou para confirmar e passou uns 5m ao telefone me descrevendo o menu que ela mesma ia preparar. Surpreso, perguntei, por que não me contava quando eu chegasse para jantar? E ela: “para você não comer no almoçou nada do que eu vou servir à noite”.

Bingo!

De lá para cá tenho acompanhado a “coerência” dos franceses no culto à boa mesa (*). Ora, com grande pompa, como no célebre episódio em que o então presidente Giscard d’Estaing espetou no peito do Paul Bocuse a mais alta insígnia da França: a Legião de Honra, em 1975 (e ganhou em retribuição a sopa de trufas com o seu nome (**), ora nos micros “points” que muitos jovens cozinheiros franceses estão abrindo em Londres, e que tenho frequentado quando vou visitar o meu filho, em que eles praticam a tradição inglesa de preparo das matérias-primas sem muitos molhos, mas como o ritmo e o “mise-em-place” da velha França.

“Honi soit qui mal y pense”

(*) E obviamente culto praticado também por outros povos, como os italianos, portugueses, peruanos… tantos, graças a Deus!

 (**) Servida no banquete que se seguiu, no suntuoso salão do Palácio do Eliseu e que foi batizada de VGE (iniciais do presidente). Receita: caldo de carne (cortada em pedaços finíssimos), vinho branco, trufas negras, foie gras, cenoura, cebola, salsão, pitadas de sal marinho e pimenta do reino. Detalhe: em cima (como uma tampa), uma fina crosta de massa folheada para preservar o calor e os aromas.

Por Reinaldo Paes Barreto