Primeiro foram as medalhas: ouro, prata, bronze (símbolos de premiações que vêm dos gregos), em geral em forma de selos colados nas garrafas; depois, e tão importante quanto, a informação de quem está conferindo o prêmio: “Decanter World Wine Awards”, “Concours Mondial de Bruxelles”, “International Wine and Spirits Competition”, além dos regionais. “Bacchus”, na Espanha, “Virtus”, em Portugal e “Descorchados” para América do Sul”. Já no Brasil, o melhor, mais cuidadoso e completo guia é o “Anuário Vinhos do Brasil”, anualmente produzido pela dupla do Grupo Baco Multimídia, Marcelo Copello e Sérgio Queiroz.

Depois, vieram as tabelas de safras, as notas dos aplicativos, a opinião dos entendidos.

Do ponto de vista de Marketing, nada mais compreensível. Afinal, a função dessa arma de vendas é despertar desejos que, às vezes, estão subjacentes. (Eu gosto de chamar de “anseios conexos” – quem já tem sapato preto fica “com desejo” de ter um marrom, etc). Mas do ponto de vista do consumidor, tenho as minhas reservas. Ou seja, pontuar (grandes) vinhos, atribuindo-lhes notas, é se fixar na árovore sem perceber a floresta. Até porque como declarou à “Revue du Vin de France” ninguém menos do que o atual proprietário e enólogo de uma das mais célebres vinícolas do Champagne, Pierre-Emmanuel Taittinger (“Maison” do mesmo sobrenome), em entrevista recente sobre o tema, “assim como ninguém ousaria dar nota aos grandes pintores, ou aos grandes compositores, quem tem autoridade para atribuir 18/20 a Picasso ou 19/20 a Mozart?”

Obras de arte, são obras de arte. E ponto.

Até porque uma obra de arte não pode ser qualificada sem levar em conta o seu “terroir”– para pedir emprestado ao vinho uma de suas referências genéticas. Por isso, a prática de premiação dos vinhos tem alguns pecados no seu prontuário e uma nota só deveria ser atribuída se ponderada com o conjunto de circunstâncias em que esse vinho foi degustado: a) ele foi provado sozinho ou ao lado de outros “concorrentes”; b) era uma degustação profissional ou um encontro alegre de enófilos; c) em uma festa ou numa curtição “a dois”; d) pela manhã (almoço) ou tarde da noite (com a boca já “usada”); e tudo isso, enfim, além do impacto do rótulo, do preço, da proveniência…

A exceção que compreendo é a consulta a um desses aplicativos — Vivino Wine Notes, Drink Wine 360, e outros — pelo comprador que desconhece o chão que está pisando naquele momento, como por exemplo um iniciante nos segredos de Baco, ou mesmo um conhecedor médio mas em visita ao exterior, ou alguém diante de uma dúvida para oferecer um presente. Ou, ainda, para quem que decide comprar mais de uma garrafa de vinhos de preço elevado, e está em dúvida sobre algumas safras, o país, ou a região.

Epílogo: mesmo assim, não se deve esquecer que o encanto do vinho (ao contrário dos destilados que são binários: bons ou maus) é que ele é membro de uma família quem vem de longe – alguns, com heranças malditas, outros com imaculado pedigree!

Por Reinaldo Paes Barreto