Dia 24 de agosto próximo (2020), vai fazer 66 anos que o Getúlio deu um tiro no coração e reentrou na História. Eu tinha 9 anos mas me lembro da “eletricidade” que tomou conta da cidade (Rio). O rádio repetindo exaustivamente a Carta Testamento, e todo mundo em estado de choque. Nós morávamos na Rua Duvivier e nesse dia meu pai se levantou algumas vezes da mesa do café da manhã para falar com colegas do Itamaraty. E o papo era o mesmo: mas como? Inacreditável? E agora?

E nos mostrou nas janelas dos prédios em frente: panos pretos. Nossa empregada em prantos…

Bom, não sou historiador. Mas vejam que coincidência: alguns anos depois, lá para 1962/3 (acho) o filho mais velho, Lutero, foi nomeado embaixador do Brasil em Honduras, pelo Jango. E como o “meu velho” dirigia a Divisão do Material do Itamaraty, foi lá em casa umas duas ou três vezes (já morávamos na Xavier da Silveira, 80) porque queria reformar a embaixada de lá, sei lá, e também queria saber “o que faz um embaixador”? E era um papo inesgotável, desde que uma botella de Cavalo Branco fosse devidamente esvaziada… O homem bebia bem.

O certo é que conversamos muito, ele e eu (eu com 17 anos, todo politizado, imaginem!) e ele me contou um episódio revelador dos últimos dias do Getúlio.  Como nos jornais de notícias da Globo, digo: abre aspas “três dias antes do desfecho (era assim que ele se referia ao suicídio) o pai me pergunto: Lutero, quero saber de ti, que és médico, uma coisa que eu nunca soube ao certo. Exatamente aonde é que fica o coração”.

Aí o Lutero, visivelmente emocionado, concluiu: “pai, três centímetro abaixo do mamilo esquerdo”.

Não deu outra.

Corta: mais anos depois, tipo 1994, eu estava presidindo uma mesa-redonda sobre a Era Vargas, no Palácio do Catete, e um desconhecido (?) se aproximou e me entregou o laudo médico da autópsia!

Bom, mais de meio século se passou “numa velocidade geométrica” e acho que o mínimo divisor comum entre os vários getúlios é que ele foi um feixe de complexidades: ora dramático, ora patético, ora magnífico, ora orgulhoso (e não vaidoso que, segundo ele, era característica feminina; mas os fotógrafos do Catete tinham ordens para retratá-lo de baixo para cima (sic Joel Silveira) era um personagens que se revezava entre o solitário de São Borja e outro, preenchido em carro aberto, acenando para a multidão.

Mas a sua paixão (Virgínia Lane?) era a política. Tanto a grande – Leis Trabalhistas, Siderúrgica, Petrobrás, quanto a pequena –cartas na manga, escapar de sinucas de bico, dividir para reinar, a ponto do Stefan Zweig dizer que ele fazia política da esquerda, com a mão direita.

Mas teve a compreensão do seu tempo: foi o primeiro o presidente a dar gargalhada em público, vestir terno branco, falar no rádio constantemente e, tendo sido o homem mais poderoso do Brasil por largos (primeiros) 15 anos, de cuja caneta se “otimizaram” destinos de embaixadores em seus palácios, empresários que ficaram multimilionários, políticos que mandaram e desmandaram em seus feudos, foi sobretudo um solitário que viveu sobriamente – quase asceticamente – as outras delícias do poder. O seu quarto por quase 20 anos tanto no palácio Guanabara, quanto no Catete,  é de um singeleza de monge.

E o seu fim, mais sozinho ainda, velho e descrente das “juras de amizade”, foi melancólico:  suas noites eram de leitura, papo com os familiares mais próximos e raros amigos íntimos, bastante insônia, algum espiritismo e, quem sabe? uma longa véspera para sair da vida e entrar na História!

(*) a expressão Getúlio bom, Getúlio mau, é do advogado Pedro Barbosa (filho da minha querida e saudosa amiga Danusia Bárbara e do Denis) com a qual, por certo, concordam as minhas tias por parte de pai, pois foi na canetada de 1937 que o meu avô perdeu o cargo de Juiz Federal no Amazonas e o meu pai o de deputado estadual pela Constituinte de 1934 – e a numerosa família viveu anos de penúria por conta disso.

Por Reinaldo Paes Barreto