Oh velho Deus dos homens eu quero ser tambor e nem rio e nem flor e nem zagaia por enquanto e nem mesmo poesia. Só tambor ecoando como a canção da força e da vida Só tambor noite e dia dia e noite só tambor até à consumação da grande festa do batuque! Oh velho Deus dos homens deixa-me ser tambor só tambor!

José Craveirinha, poeta moçambicano, 1922-2003

O som do tambor ecoando pelos céus, trovejando notícias e informação; pelas savanas, pelos desertos, pelas montanhas, vales e florestas. O tamborilar, cadenciado e constante, anuncia nascimentos, mortes, casamentos e entronizações; declara festas e sentenças, choro e riso.

A cada batida e ritmo corresponde um significado, cada batucar constitui um signo auditivo reconhecido e descodificado por todos quantos o escutam.

Em Moçambique, até ao século XIX, batuque significava danças e ritmos executados ao som de tambores, alguns de caráter ritual; atualmente, refere-se a práticas musicais de entretenimento. De semântica múltipla, a própria palavra batuque reverbera-se por vários povos, e em cada lugar, ganha um significado novo, o qual se junta aos anteriores e cria uma panóplia elaborada de ideias. Em Cabo Verde, o batuque é um género musical e a batucada é o ribombar dos tambores, em tempo de Carnaval e pelo São João ribombam anunciando a festa.

Mas, deixemo-nos estar em Moçambique, onde a manhã alça-se cálida e serena e o tambor, batucando firme, anuncia festa e onde batuque, é música e dança – um todo complexo que ultrapassa as suas partes. A percussão toca e excita o âmago da alma, num tom grave, firme e encorpado; incita a dançar, a mexer, a exorcizar o espírito de tristezas e desânimos.

No Norte de Moçambique, onde as sociedades são maioritariamente matrilineares – o que significa que as gerações são contadas de mãe em mãe – as mulheres mais velhas tocam os tambores, convocam as comunidades, dão início aos rituais, às festas; com esses mesmos tambores, entronizam reis e preparam as novas gerações para assumir cargos e funções – estruturam a sociedade.

A grande festa do batuque acontece anualmente, logo a seguir à época das chuvas, estende-se demoradamente por longos dias e noites, com banquetes abastados, vestuário opulento e jogos de luz. Nestes dias, o tambor é rei e o batuque, a norma. Tambor é liberdade, é expressividade; o toque do tambor é o brado da alegria.

Que sejamos todos tambores em dia da grande festa do batuque: comunicando alegria e festa, esperança e bonança.

António Montenegro Fiúza

CEO – Chief Executive Officer do Grupo Lusófona Brasil