Estamos em junho, mês em que se celebrou o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas (10 de junho) e este blog abre a nossa Câmara, a primeira criada no mundo e à qual o novo governo português de então (1911) deu grande apoio — um dos atos da primeira República de Portugal, chefiada por Manuel Arriaga  e que encontrou todo o suporte do nosso então presidente, Hermes da Fonseca (marechal que casou-se já velho com a artista Nair de Tefé, que promovia festas até de manhã no Palácio do Catete e, mais tarde, construiu o primeiro cinema na Av. Atlântica, que batizou com o seu nome às avessas: Rian) que infelizmente foi posto abaixo para dar lugar a um hotel – português: Pestana.

Mas por que os dois presidentes deram tamanha importância a uma Câmara de Comércio portuguesa na capital do Brasil? Porque segundo o belo livro-álbum encomendado pelo presidente da Câmara na época, Paulo Elísio de Souza (2009-2013) para celebrar o centenário(*) da CPCI-RJ — A Outra Margem do Atlântico — já em 1894 estimava-se que os portugueses tinham mais de 55% de todos os estabelecimentos comerciais ou industriais registrados no Rio de Janeiro. O que representava quase 70% do capital circulante na praça. E essa “elite lusa” não cansava de investir na sociedade carioca-brasileira, criando diversas associações, como a ACRJ (hoje ACRio), o Mercado de São Sebastião, o antigo Centro de Abastecimento e Distribuição do Estado da Guanabara (Cadeg), o Mercadão de Madureira, etc.

(*) A magnífica festa dos 100 anos realizou-se no Museu Histórico Nacional aonde compareceram cerca de 550 pessoas!)

Outros patrícios criaram firmas-empresas emblemas do seu tempo, que atuam até hoje com sucesso, como a Confeitaria Colombo em 1984 (Manoel Lebrão = “O freguês tem sempre razão” — vejam a pinta “do gajo”, imortalizado em bronze na sua aldeia natal, Vila Nova Cerveira).

 

Foto da estátua do Manuel Lebrão

 

 Ou a Souza Cruz, criada e tocada pelo Albino Souza Cruz, que se tornou sócio do Joquei Clube Brasileiro e amigo dos figurões que o frequentavam, entre eles o Ministro da Fazenda, Oswaldo Aranha (**); o interventor do RGS,  Flores da Cunha e tantos outros “badalados” da alta roda do Rio da época.

 

Foto de Oswaldo Aranha e Flores da Cunha

(**) curiosidade: o cigarro Hollywood foi assim batizado em homenagem ao bonito gaúcho, fumante inveterado, que um dia provocou o Lebrão: quando é que vcs vão fazer um cigarro moderno? E ele mandou a fábrica produzir um cigarro ”para o artista!”

Adiante: Portugal de hoje. Em uma fase da economia criativa em que tanto se fala em mobilidade urbana e infraestrutura, Portugal dá banho. E em energia eólica, desde o fim dos anos 80, é um exemplo. O que transformou o país de uma nação “parada” durante os três primeiros quartos do século XX)  em “hub” para o resto da Europa. Mais globalizado do que muitos outros mercados mais ao norte. Sendo Lisboa, hoje, uma capital moderna, vibrante, com restaurantes estupendos.

No que concerne as relações bilaterais com o Brasil, desde os anos 90 houve grande incremento das importações de produtos primários portugueses e, mais recentemente, tecnológicos: foi lá que aprendemos o inovador sistema de cobrança de pedágio eletrônico, por exemplo. Ou a construir fachadas modernas, que permitem visão de dentro para fora e vice-versa, como as que serão vitrine (?) do novo MIS, em Copacabana, obra da portuguesa Seveme. E mesmo cidades com imagem de anteontem, como Braga, são hoje polos de TI, conectividade e experimentos no campo da inteligência artificial e robótica.

Na outra mão e da nossa parte, temos oferecido boas oportunidades para o investimento português no Brasil, sobretudo nas áreas têxtil, de energias alternativas, construção civil, turismo e telecomunicações. Tanto que o Brasil é, atualmente, o principal destino do capital português fora da Europa.

E a nossa centenária Câmara, da qual tenho o privilégio de fazer parte, depois do Paulo Elísio passou pelos dois mandatos do Ricardo Coelho e, hoje, é presidida pelo veterano associado Manuel Domingues, dinâmico e presente como os anteriores.

Finalmente e na mão dupla, Portugal e o Brasil somam, atualmente, um mercado de cerca de 250 milhões de pessoas que falam português e “moram” — como queria Pessoa — na pátria dessa língua. E as caravelas que ajudaram Portugal a “dar novos mundos ao mundo”, segunda a feliz expressão de um empresário português, nos séculos 15 e 16, foram “promovidas” às fibras óticas da internet (a caravela do século XXI) que nos permitem conectar, em tempo real, esse contingente que habita nove países em cinco continentes e forma a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).

Bem haja!

 

Por Reinaldo Paes Barreto