O Banco de Portugal salienta que o ambiente externo está menos benigno e que o abrandamento da procura externa deverá levar a que as exportações cresçam a um ritmo mais lento do que esperado há quatro meses. O investimento também deverá abrandar, mas o aumento do consumo privado deverá compensar as travagens.

 

As tensões protecionistas a nível global estão a afetar a procura externa e deverão forçar uma travagem mais brusca do que anteriormente esperado nas exportações portuguesas na segunda metade do ano, alertou o Banco de Portugal (BdP), esta quinta-feira, 11 de outubro. No entanto, o aumento do rendimento e da confiança dos consumidores deverá impulsionar o consumo privado, o que levou o banco central a manter inalterada a previsão de crescimento da economia portuguesa este ano nos 2,3%.

 

 

“O produto interno bruto (PIB) aumentou 2,3% no primeiro semestre de 2018 e deverá crescer 2,2% na segunda metade do ano. Para o conjunto do ano de 2018, projeta-se um aumento do PIB de 2,3%, inferior em 0,5 pontos percentuais (pp) ao registado em 2017, mas 0,3 pp acima do crescimento estimado pelo Banco Central Europeu para a área do euro, prosseguindo, assim, o processo, muito gradual, de convergência real da economia portuguesa com a área do euro”, referiu o Banco de Portugal, no Boletim Económico de outubro.

Apesar de o banco central liderado por Carlos Costa ter mantido inalterada a previsão divulgada em junho, salientou mudanças no peso dos contributos. “O crescimento das exportações e o crescimento da formação bruta de capital fixo são revistos em baixa; em contrapartida, o aumento do consumo privado deverá ser superior ao antecipado em junho”, explicou.

“As tensões comerciais a nível global aumentaram substancialmente na primeira metade de 2018, refletindo as medidas protecionistas anunciadas pelos EUA e as retaliações por parte dos seus parceiros comerciais, apresentando-se como um risco assinalável para a evolução do comércio internacional e, em consequência, da atividade mundial”, sublinhou.

As tensões travaram o comércio mundial no primeiro semestre e o efeito chegou a Portugal por via da quebra da procura externa, que deverá prosseguir na segunda metade do ano e até de forma mais acentuada.  Após um disparo de 7,8% nas exportações em 2017, o crescimento foi de 6% nos primeiros seis meses de 2018 e deverá abrandar para 4% no segundo trimestre. No total do ano, o banco central prevê um crescimento de 5% nas exportações, face aos 5,5% previstos em junho.

O BdP explicou, contudo, que “são esperados novos ganhos de quota de mercado das exportações portuguesas, ainda que inferiores aos observados em 2017 e concentrados em setores como o turismo e os automóveis”.

 

Adiamento de infraestruturas penaliza

O investimento, ou seja, a formação bruta de capital fixo (FBCF), é outra área de revisão face a junho. “Após um crescimento elevado em 2017, a FBCF deverá abrandar em 2018.  No conjunto do ano, projeta-se agora um crescimento de 3,9%, face a 5,8% em junho e aos 9,2% de 2017).

“Esta evolução é transversal aos vários tipos de investimento. A desaceleração perspetivada para o investimento em construção em 2018, após um crescimento significativo em 2017 (8,3%), reflete, em parte, o impacto do adiamento de trabalhos em algumas grandes obras de infraestruturas”, referiu o BdP.

De acordo com a projeção, o investimento em máquinas, equipamentos e material de transporte apresenta uma taxa de crescimento elevada, mas inferior à registada no ano anterior, num contexto de expetativas de crescimento mais moderado da procura global e de maiores níveis de incerteza prevalecentes a nível externo.

 

Consumo privado compensa

A contrabalançar o abrandamento das exportações e do investimento, o consumo privado deverá crescer mais do que projectado em junho. Segundo o Banco de Portugal, estas evoluções prolongam os perfis observados na segunda metade de 2017.

Depois de ter aumentado 2,3% em 2017, o consumo privado deverá crescer 2,4% em 2018 (mais 0,2 pp do que o previsto em junho).

“O dinamismo do consumo privado continuou a refletir o crescimento significativo do rendimento disponível real das famílias e os níveis historicamente elevados da confiança dos consumidores”, explicou o banco central, adiantando ainda que  “esta evolução está também associada ao dinamismo do crédito ao consumo, cujo peso na despesa de consumo das famílias continuou a aumentar”

 

Meta do défice exequível, mas com riscos

Em relação ao o défice orçamental, o Banco de Portugal recordou que, ajustado de fatores pontuais, tem apresentado um valor
mais baixo no segundo semestre do que no primeiro.

“Tendo em consideração este perfil, o objetivo oficial para o défice deste ano (0,7% do PIB), definido no Programa de Estabilidade (PE 2018-22) e mantido inalterado no âmbito da segunda notificação do Procedimento dos Défices Excessivos, parece exequível, embora não isento de riscos”, frisou.

O banco central destacou alguns fatores que exercem uma pressão ascendente na despesa do segundo semestre, tais como o diferente perfil de pagamento do subsídio de Natal, o efeito gradual do descongelamento de carreiras dos funcionários públicos e o aumento extraordinário das pensões em agosto de 2018.  Adicionalmente, subsiste alguma incerteza relativamente à evolução de algumas rubricas da receita fiscal e não fiscal. sublinhou.

“Relativamente a esta última é de referir a recuperação do valor remanescente da garantia concedida pelo Estado e executada aquando da resolução do Banco Privado Português, incluída na estimativa anual, e que pode não ser conseguida integralmente em 2018”, alertou.

 

Salários deverão acelerar

Em relacão ao mercado de trabalho, a evolução projetada pelo BdP para 2018 carateriza-se por um aumento do emprego de 2,3%, inferior em 1,0 pp ao observado em 2017. “A taxa de desemprego continua a sua trajetória descendente, devendo situar-se em 7,0% no conjunto do ano de 2018 (-1,9 pp comparativamente a 2017)”, afirmou.

“Os salários deverão acelerar, pressionados pela redução da taxa de desemprego, pelo impacto do aumento do salário mínimo nacional e pelo descongelamento gradual das progressões salariais na administração pública”, explicou, acrescentando que comparativamente ao Boletim Económico de junho, verifica-se uma revisão em baixa do emprego e da taxa de desemprego, num quadro de revisão também em baixa da taxa de atividade.

As projeções do banco central apontam para que a economia portuguesa mantenha uma capacidade de financiamento, medida pelo excedente da balança corrente e de capital, num montante equivalente a 1,4% do PIB em 2018, idêntico ao valor de 2017.

“Por um lado, projeta-se uma deterioração do saldo da balança de bens e serviços. Por outro lado, espera-se um aumento das transferências comunitárias – que deverão observar uma recuperação no segundo semestre – e uma diminuição dos encargos com juros de dívida pública”, referiu.

 

Dívida e demografia preocupam

Segundo o Banco de Portugal, após cinco anos em que o crescimento da atividade excedeu, em geral, a média das estimativas de crescimento potencial, “é expetável uma moderação gradual da taxa de crescimento do PIB em Portugal nos próximos anos, consistente com uma aproximação à taxa de crescimento potencial”.

A receita sugerida pelo banco central face à “progressiva maturação do processo cíclico” reside na criação de condições para um aumento do potencial estrutural de crescimento da economia portuguesa, “em particular tendo em conta os riscos colocados pelos elevados níveis de endividamento e os desafios associados à evolução demográfica, aos baixos níveis de capital por trabalhador e de qualificação da mão-de-obra e às debilidades no funcionamento de mercados, que conduziram a afetações ineficientes de recursos no passado”.

 

Fonte: Jornal Económico