Para começar, a ostra é um bicho muito louco. Não apenas é hermafrodita, mas ambivalente. Isto é, possui os órgãos reprodutores dos dois sexos e eles funcionam com a mesma intensidade. Durante a sua vida — que pode durar até 15 anos! — a ostra pode ser fêmea e depois macho e ir alternando entre ser macho e ser fêmea.

Já com relação ao título, a pérola é uma filha “rejeitada” da ostra, porque como explicam os ambientalistas as pérolas são “feridas cicatrizadas”. É resposta do organismo do molusco quando alguma substância estranha ou indesejável, tipo um parasita, ou um grão de areia, invade a concha. Ela, aí, isola esse tumor dentro de uma cápsula -– a pérola. E os japoneses descobriram um meio de fazê-las produzir várias pérolas.

A pérola dentro da ostra

Bom, mas quem gosta de ostras, (e há uma legião de aficionados, como o meu irmão Renan e eu, para ficarmos na família), por certo já ouviu falar em mês com R e mês sem R. E por que essa “escolha de Sofia”? Porque na Europa, NÃO se deve comê-las de maio a setembro, que é o período de calor mais forte e, no hemisfério sul, SIM, o ideal é comê-las de maio a setembro, porque são meses mais frios. (*). E o calor facilita a proliferação de bactérias que a ostra absorve da água, uma vez que se alimenta de plânctons e faz isso sugando e filtrando a água. Uma ostra adulta pode filtrar até 15 litros de água por dia. Imaginem de uma água contaminada! Além disso isso, este um conceito anterior aos containers refrigerados quando elas eram transportadas em transporte precário, abafado, sobretudo na França, do litoral para Paris.

Na outra ponta, há também uma outra legião dos cautelosos (ou traumatizados por alguma infecção intestinal) que não comem ostra de jeito nenhum, porque ou já tiveram uma experiência desastrosa ou usam o argumento da oposição: uma única ostra envenenada é uma “serial killer”.

Sem dúvida. Mas como diria um “oyster oriented” insuspeito, o Nelson Rockefeller (que as devorava no Oyster Bar da Central Station, em NY), melhor que muitos a evitem: sobra mais para quem gosta!  E para escolta-las? Para ficar apenas nas clássicas harmonizações, cito os  Muscadets, passando por um Pouilly-Fumé ou Chablis, ou um champagne, embora eu prefira um Sancerre, para focarmos nos franceses. Embora os  ingleses mandam descer uma cerveja Guiness, gelada, pretinha da Silva, para acompanhá-las.

E por fim (com trocadilho): você já provou ostra doce, de sobremesa? Então, prove. Para prepará-las há que retirá-las das conchas e regá-las generosamente com algum bom vinho branco de colheita tardia — doces naturais(*) —  e, depois, coloca-las na geladeira por uma hora. Para servir, recoloque-as nas conchas. Vai surpreender!

Ostra doce

Ah, sim, e ainda tem a bala de prata: ostra é afrosdisíaca? Só pode! Primeiro e um pouco mais cientificamente, porque ela é uma usina de zinco, e existem muitas evidências que o zinco é necessário para manter os níveis normais de testosterona no plasma sanguíneo. Segundo, porque de acordo com a nutricionista Flávia Leite, ela também é rica em selênio e ferro, que aumentam a oxigenação do sangue de quem as consome. Terceiro, porque fora exceções na praia, ninguém come ostras sem escoltá-las com bons vinhos brancos, ou champagne. E, terceiro, porque fora as exceções na praia, talvez, ninguém come ostras sem escoltá-las com bons vinhos brancos, ou champagne.

E se ostras em cima de uma bandeja cheia de gelo, champagne no balde e  provavelmente um cenário romântico não for um convite ao encontro “de gêneros”, só viagra resolove!

(*) Os tipos de vinhos brancos, doces naturais, mais fáceis de encontrar, são o Tokay, o mais famoso da Hungria; ou o Sauternes, o “príncipe” das margens do rio Gironde, no sul da França; ou os “vinhos de gelo”, alemães; ou os “Late Harvest” do Cone Sul; ou um Moscatel de Setúbal, português.

Por Reinaldo Paes Barreto